Arte

VEC VISUAIS CONVIDA

Postado em 04/09/2020

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Como um exercício de múltiplas vozes, o VEC VISUAIS convida profissionais que atuam ou flertam com o universo múltiplo das Artes Visuais, apresentando, em diversos formatos e linguagens, textos, imagens, áudios ou vídeos, autorais ou de caráter citacionista, que caracterizem a troca de saberes. Sem um formato definido, são como fagulhas reluzentes diante de uma imensa possibilidade.

São propostas em processo ou finalizadas em desenho, técnicas mistas, fotografia, imagem digital, material documental, poesia visual, poesia, projetos, textos conceituais, históricos, reflexões, resenhas, notas, rascunhos, esboços, observações e outros.

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A questão indígena em três momentos da fotografia de Claudia Andujar

Por Luana Bonfá*

A tematização de povos indígenas é uma constante na história da representação visual ocidental, ainda que sua aparição possa ser um tanto quanto esporádica.  Com o alargamento de conteúdos, materiais e suportes que observamos nas Artes Visuais a partir da segunda metade do século XX, a temática indígena, embora dispersa, está longe de ser casual: atravessa temas importantes ligados a questões ambientais, disputas políticas, direitos humanos – entre tantos outros que podem compor o campo irrestrito de assuntos da Arte.

A afluência dessa temática no Brasil é, sem dúvida, mais facilmente observada no trabalho de Claudia Andujar. Os momentos extensos da sua fotografia dedicados a retratar os povos Yanomami vêm acompanhados de um engajamento pessoal e apoio incansável à luta pela demarcação das terras indígenas. Andujar primeiro entrou em contato com os Yanomami através das coberturas fotográficas que realizava para a revista Realidade nos anos 1960. Mesmo já tendo visitado outros indígenas, parece ter encontrado nesse - à época um grupo ainda pouco contatado – o amparo a um projeto fotográfico nascido do desejo de comunicação. Claudia Andujar chegou ao Brasil em 1955, já tendo passado forçadamente por vários lares. Nasceu na Suíça, mas logo sua família emigrou para a cidade de Orádea, então dominada pela Hungria; teve a infância em meio à guerra, agravada pela separação dos pais e a posterior morte de seu pai judeu em um campo de concentração; na adolescência, fugiu para os Estados Unidos e, após anos vivendo em Nova Iorque, veio para o Brasil. Andujar já tinha alguma experiência com pintura, mas aqui em terras brasileiras optou pelo experimento autodidata da fotografia por uma vontade de desvendar e conhecer o país, estabelecendo, através da imagem, um diálogo quando ainda não falava português. 

Os primeiros contatos com povos indígenas se deram por sugestão de Darcy Ribeiro, a quem conheceu através de amigos em comum. Eventualmente, suas fotos passaram a compor pautas jornalísticas e reportagens sobre povos indígenas, principalmente para a revista Realidade. Já desde o início, o tom de seu trabalho ia à contramão da imagem construída (e esperada) dos povos indígenas – a de mito de origem da identidade nacional ou de um estado de vivência julgado “primitivo”. O olhar fotográfico de Claudia Andujar pronuncia um desejo de descobrir, captar e se comunicar sensivelmente com as ações que se desenrolam diante de seus olhos. 

Depois de contribuir alguns anos com matérias jornalísticas, o projeto de um estudo fotográfico mais aprofundado sobre os Yanomami se viabiliza no início dos anos 1970, com uma bolsa Guggenheim e outra posterior bolsa FAPESP. Nesse primeiro período de intenso convívio e registro fotográfico, Claudia Andujar lança mão de experimentações técnicas em um desejo claramente manifesto de compreender os Yanomami. Subexposições e superxposições, filtros, aplicação de vaselina nas bordas da lente, experimentações com a iluminação nos espaços internos das ocas, entre outros recursos que usará ao longo da carreira, surgiam sempre em favor da compreensão de algo que está além da imagem objetiva. Nas fotos de caçadas, os Yanomami se mostram no centro de imagens dissipadas nas bordas, árvores borradas que parecem movimentar-se, conferindo assim uma espécie de existência anímica à floresta que envolve os indígenas.  Especialmente os registros de rituais xamânicos chamam atenção, com corpos em movimento focados no primeiro plano enquanto luzes parecem se desenhar e multiplicar ao redor desses, como manifestação pulsante de uma força exterior. Não se trata de ilustrar o pensamento e modo de vida dos Yanomami, mas sim de reagir com um olhar maravilhado que tenta dar a ver o invisível. 



Claudia Andujar. 1974. Matriz-negativo. Coleção da artista. In: Enciclopédia Itaú Cultural, Disponível em: <https://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra25517/yanomami>


Claudia Andujar. 1974. Matriz-negativo. Coleção da artista. In: Enciclopédia Itaú Cultural. Disponível em: <https://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra15930/yanomami>

O contato da nossa sociedade com os povos indígenas vinha se intensificando, atingindo um momento devastador diante dos programas ambiciosos de infraestrutura da ditadura militar no Brasil. A construção da rodovia Perimetral Norte (BR-120), seguida por uma corrida mineradora nos anos 1980, provocou invasões de territórios indígenas, levando aos Yanomami a urgência de assistência médica e conservação de seus territórios, após epidemias de gripe, sarampo, malária e pneumonia. Claudia Andujar se mobiliza com dois médicos para organizar o trabalho na área de saúde e, a partir das fotografias das fichas médicas, surge a série Marcados. Como os Yanomami possuem um sistema onomástico diferente, a organização dos dados e a própria fotografia teve que recorrer a algo bastante convencional para nós, mas externo aos indígenas: a atribuição de números aos fotografados. Contudo, as leituras em cima dessas fotografias projetaram outras interpretações críticas sobre os efeitos do contato com esses povos e também sobre o ato de marcar indivíduos. Essas interpretações não derivam do acaso classificatório já que também as fotos dessa série diferem bastante das de identificação a que estamos habituados.

 

Fotografias da série Marcados expostas na 27ª. Bienal de São Paulo. Aldeia Mucajai. 1983. Disponível em: <http://bienal.org.br/post/457>

Enquanto as fotos de identificação assumem a luz frontal e direta e o registro facial inexpressivo, Andujar preserva incidências interessantes da luz, como nas fotos de Aracá, nas quais os indígenas emergem de um fundo completamente negro. Também o enquadramento é variável, rompendo com o recorte facial padronizado, afastando ou aproximando a câmera de forma a incluir várias outras informações: a presença ou ausência de roupas como testemunho do nível de contato; a postura frágil ou constrangida das crianças e o contraste com a desenvoltura e olhar firme de outros diante das lentes. Como também a representação visual fotográfica é alheia aos Yanomami, não há um sentindo subjetivo da pose, preservando assim suas reações espontâneas diante da situação. 

 
Da série Marcados. Aldeia Aracá. 1983. Em exposição no Malba, 2016. Disponível em: <https://www.malba.org.ar/en/evento/claudia-andujar-marcados/>

Os assim “marcados” são registros de uma ação necessária (a assistência médica) resultado de um contato agressivo por parte de não-índios. A fotografia que expõe a força dos indígenas e também sua vulnerabilidade, de certa forma, nos educa, através dos nossos códigos visuais (o valor simbólico e histórico de marcar indivíduos), sobre a consequência atroz de políticas contrárias à existência dos indígenas. 

O engajamento maior com a causa Yanomami diminuiu o envolvimento com projetos fotográficos, mas Andujar constituiu um vasto acervo imagético tendo esse povo como temática central. Revisitando esse arquivo no início dos anos 2000, a fotógrafa utiliza novamente de experimentações técnicas para reinterpretar as experiências registradas. Disso, nasce a poética série Sonhos cujos aspectos oníricos resgatam tanto as relações mágicas e espirituais da ritualística Yanomami quanto as próprias memórias pessoais de vivências distantes da fotógrafa. Assim como na memória (e nos sonhos), onde as imagens são desordenadas, aqui surgem sobrepostas e estabelecendo relações sensíveis entre si. São fotografias potentes que novamente transbordam o registro rígido e casual e nos convidam a refletir sobre a outra forma de existência e relação com o meio que possuem os Yanomami, assim como qualquer outra população indígena. 

 

Êxtase. Fotografia da série Sonhos. 1976-2011. Fusão de imagens. Impressão em jato de tinta. Acervo banco Itaú. In: Enciclopédia Itaú Cultural. Disponível em: <https://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra66650/extase>

Claudia Andujar declarou mais de uma vez seu interesse por conhecer e se comunicar com o “outro”, assumindo toda a complexidade e problemática dessa alteridade. A alteridade no seu trabalho não carrega a fantasia primitivista tantas vezes imposta ao indígena, nem reduz sua identidade aos problemas materiais por eles enfrentados. Pelo contrário, demonstra um olhar interessado na compreensão de outras experiências humanas e que, ao registrá-las, procura também reagir a elas, dispondo de elementos que trarão o invisível e o indizível. 

Claudia Andujar seguiu participando de grupos de trabalho de assistência médica e também na coordenadoria da Comissão pela Criação do Parque Yanomami. Após anos de organização e campanha por parte dos indígenas e apoiadores, os Yanomami tiveram sua terra demarcada, em 1992. Sua obra fotográfica continua afirmando o compromisso com a defesa e preservação da cultura desse grupo. Também eles continuam, após a demarcação, lutando contra invasões e a constante ameaça de esbulho de suas terras.

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BIBLIOGRAFIA

ANDUJAR, Cláudia. A vulnerabilidade do ser. São Paulo: Cosac Naify, Pinacoteca do Estado, 2005. 
_________. Marcados. São Paulo: Cosac Naify, 2009. 
Catálogo 27ª. Bienal de São Paulo: Como Viver Junto. São Paulo: Fundação Bienal, 2006.

* Luana Bonfá é professora, graduada em Letras e Mestra em Estética e História da Arte pela Universidade de São Paulo (USP). Atua sobre temas de arte contemporânea brasileira e história da arte no Brasil.

 


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