Filosofia

O mito do herói em Star Wars

Postado em 01/05/2020

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Por Paula Lopes, filósofa e professora de filosofia na rede estadual de ensino de São Paulo.

O que é um mito? Por que as histórias de heróis fascinam a humanidade? Bem, a despeito do que muitas mentes simplórias defendem, uma narrativa mitológica não é uma "mentira", pois, ao contrário da mentira compreendida como mero dito fantasioso, o mito trata sempre de explicar e responder alguma questão que pertence à esfera do transcendente. É assim com os chamados mitos de origem, que com sua linguagem peculiar e imagens fantásticas, narram o surgimento do mundo e da humanidade, de acordo com as crenças das mais diversas culturas, em todas as épocas. O mito não se prende ao tempo histórico, pois frequentemente se refere a um passado impossível de ser localizado, em geral um "antigamente" do qual não existe nenhuma prova material. O tempo mítico é ancestralidade e contemporaneidade simultaneamente, pois nele se desenham valores a um tempo humanos e divinos, válidos para a eternidade.

E os mitos heroicos? As histórias de heróis, comuns a todos os povos do mundo, letrados ou iletrados, estão presentes em todas as épocas e tratam basicamente de humanos que, ao enfrentar todo tipo de adversidade, atingem a plena realização espiritual, conectando-se a uma espécie de força cósmica originária, adormecida nos seres humanos. O herói enfrenta e cumpre o desígnio humano mais elevado: pelo sofrimento, transcende a materialidade e expressa a essência divina latente em todos nós, ainda que as construções sociais a desprezem por se tratar exatamente do supremo Desconhecido. Entretanto, é disso que todos somos feitos, na camada mais profunda do ser, e é por esse motivo que o herói se torna um modelo, não pela admiração que seus feitos atraem, mas por sabermos, intuitivamente, que ele representa cada um de nós.

Negar a transcendência que está na origem de nossa humanidade revela muito sobre a importância que as sociedades materialistas dão ao controle. Segundo Joseph Campbell, quando Freud sugere que culpemos nossos pais e Marx sugere que culpemos uma classe economicamente dominante por todos os males que nos afligem, a tentativa é de nos isentarmos da responsabilidade de assumir nossa própria trajetória, e na medida em que escapamos assim a todo inexplicável, a vida com respostas se torna mais "fácil", ou manipulável.

Entretanto, há algo profundo em nós que eternamente irá clamar pelo retorno ao que realmente somos, e é em busca desse algo que o herói enfrenta as contrariedades do mundo, e se necessário for, sacrifica sua própria vida.

O caminho do herói exige coragem, conhecimento e compaixão. O herói não enriquece, não é vaidoso, não tem todas as respostas, e frequentemente é exposto a dilemas morais. Faz parte do seu caminho enfrentar e derrotar suas fraquezas, não apenas pela vontade, mas pela aceitação. É sabendo-se imperfeito que o herói se conecta à força transcendental infinitamente maior do que si mesmo. Ele conscientemente se entrega a essa força e converte-se em veículo dela para atuar no mundo. Ele confia plenamente na ordem cósmica que o acolhe e protege para que cumpra seu destino. "Não seja feita a minha vontade, mas a Tua", relata o evangelista. Assim o herói se torna invencível.

No momento em que  Luke Skywalker está buscando destruir a Estrela da Morte, vemo-lo perseguido pelo próprio pai, convertido ao lado negro, e eis que está absolutamente sozinho, pois já não conta nem mesmo com a orientação de seu companheiro androide, avariado na batalha. Deve atingir, com um único disparo, um ponto exato da grande nave inimiga para garantir sua destruição. Não existe margem para erros. Nesse momento de aparente abandono e eventual desespero, que é o emblema mitológico da série Star Wars, criada por George Lucas e que mereceu a chancela intelectual de Joseph Campbell, nada mais resta ao herói, a não ser render-se ao comando daquele algo superior a si. Ouve então a voz de seu falecido mestre, que o orienta a desligar o computador da nave e deixar-se guiar pela Força. Faz isso, e obtém êxito. Um êxito heroico por excelência, numa missão sobre-humana. Assim agem os heróis.

A saga Star Wars é notadamente mítica, e muito pode ser dito sobre cada um de seus personagens com relação a arquétipos e ancestralidade. Aqui tomei como exemplo apenas um momento notável que enfatiza uma típica atitude do herói (sua entrega ao desígnio), a ascendência a ser abandonada (o pai que combate do lado oposto), seu mestre (a orientação espiritual e moral) e a evidente existência da Força (a experiência da transcendência).

Sim, a Força existe. É nesse "campo energético" - chamemo-lo assim, na falta de definição mais precisa - que estamos todos imersos, e é dele que somos feitos. Universalmente. Não apenas "está dentro" de nós, mas dela somos feitos, humanos e todos os seres.
Através dos tempos, a humanidade observou o céu e interagiu a seu modo com as estrelas, o que resultou numa inesgotável quantidade de mitos. Privilegiada nossa época, que nos permite a vivência mítica na grande tela do cinema. E ainda que a ilusão do materialismo predomine, a oportunidade da experiência mítica jamais se extinguirá, pois por ela sempre ansiaremos, conscientes ou não.
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"Em honra ao amigo Marcelo Vianna, a quem a Força convocou mais cedo do que a gente esperava."

Foto: Star Wars - The Ultimate Visual Guide. Editora: DK Books

tags: cinema filosofia george lucas joseph campbell o herói das mil faces pensamento star wars



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